Foz do Iguaçu (PR) – Os presidentes da Argentina, Javier Milei, do Paraguai, Santiago Peña, e do Panamá, José Raúl Mulino, divulgaram neste sábado, 20, um comunicado conjunto que expressa “profunda preocupação” com a situação migratória, humanitária e social da Venezuela e exige a restauração da democracia no país governado por Nicolás Maduro.
O documento também leva a assinatura do ministro das Relações Exteriores da Bolívia, Fernando Aramayo, além de altos representantes do Equador e do Peru. Todos participaram, ainda pela manhã, da 67ª Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul e Estados Associados, realizada em Foz do Iguaçu.
Na nota, os signatários afirmam que a crise venezuelana “extrapolou fronteiras” e impacta diretamente os países vizinhos, gerando fluxos migratórios sem precedentes na região. O grupo solicita que Caracas retome o “pleno funcionamento das instituições democráticas” e assegure eleições livres, competitivas e com observação internacional.
O texto também insta o governo venezuelano a “cumprir as normas internacionais aplicáveis”, libertar de imediato todas as pessoas “arbitrariamente privadas de liberdade” e assegurar o devido processo legal e a integridade física dos detidos. Não foram detalhados nomes ou números de presos políticos mencionados pelos autores do comunicado.
Embora contenha duras críticas à gestão de Nicolás Maduro, a declaração não propõe sanções econômicas nem indica ações concretas de pressão além do apelo diplomático. Os líderes afirmam, contudo, que “seguirão acompanhando de perto” o desenrolar da crise e “avaliarão novos passos” caso não haja avanços no curto prazo.
Divisão dentro do Mercosul
A manifestação aprofundou o contraste entre os chefes de Estado presentes em Foz do Iguaçu. Durante a plenária que encerrou a cúpula, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva evitou mencionar diretamente o vizinho caribenho, mas alertou para “riscos de uma intervenção externa” e defendeu negociações internas como caminho para a pacificação. Em posição oposta, Javier Milei apoiou abertamente a possibilidade de pressão militar dos Estados Unidos contra o regime chavista.
O comunicado oficial do Mercosul, divulgado ao término do encontro, não trouxe qualquer referência à Venezuela — país suspenso do bloco em 2016. A ausência reforçou a percepção de que não há consenso entre todos os Estados Partes (Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Bolívia) sobre como lidar com a crise política em Caracas.
Ao comentar a divulgação da nota à margem da cúpula, Santiago Peña classificou a situação venezuelana como “a maior emergência humanitária da história recente da América do Sul”. Para o presidente paraguaio, somente uma “clara restauração da ordem constitucional” poderá conter a onda migratória e permitir a reconstrução econômica do país.
Já José Raúl Mulino, recém-empossado no Panamá, disse que o fluxo de venezuelanos atravessando o Darién — floresta que separa a América do Sul da América Central — “coloca em risco a estabilidade de todo o continente” e exige respostas coordenadas. O Panamá é Estado Associado do Mercosul desde 2012.
Integrantes de delegações que não subscreveram o texto relataram reservadamente que preferiram aguardar o desfecho das negociações entre governo e oposição venezuelana, mediadas pela Noruega, antes de apoiar qualquer posição conjunta mais dura.
Por ora, a nota mantém a pressão diplomática sobre Caracas e escancara a heterogeneidade de visões dentro do maior bloco econômico sul-americano sobre como enfrentar a crise que preocupa governos e organismos internacionais há quase uma década.
Com informações de InfoMoney




