MOSCOVO, 1º de fevereiro – O vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia, Dmitry Medvedev, declarou que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, age como um líder eficaz empenhado em encerrar conflitos, mas afirmou que militares russos não identificaram qualquer sinal dos submarinos nucleares que o norte-americano diz ter deslocado para a costa russa.
Elogios a Trump e respeito à escolha dos eleitores
Em entrevista concedida em sua residência nos arredores da capital russa, Medvedev foi questionado sobre a influência de Trump para Moscou e sobre especulações de que o chefe da Casa Branca teria relações privilegiadas com o Kremlin. O ex-presidente russo respondeu que “o povo dos Estados Unidos escolheu o republicano e nós respeitamos essa decisão”. Acrescentou que Trump demonstra coragem ao confrontar o chamado establishment em Washington e que seu estilo, por vezes considerado ousado, tem se mostrado produtivo.
“Há quem associe suas ações a um cenário de caos, mas isso não é totalmente correto. Existe uma lógica consciente por trás da forma como ele atua”, afirmou. Para Medvedev, a experiência empresarial de Trump ajuda a explicar sua postura: “Não existe ex-empresário”, disse, fazendo referência a uma piada popular na Rússia segundo a qual “não há ex-agentes da KGB”.
Negociações para a Ucrânia em Abu Dhabi
Trump tem repetido em discursos recentes que pretende entrar para a história como “pacificador” e que um acordo para interromper a guerra na Ucrânia estaria próximo. Segundo o norte-americano, uma nova rodada de negociações entre representantes dos Estados Unidos, da Rússia e da Ucrânia está marcada para 4 e 5 de fevereiro, em Abu Dhabi.
Medvedev avaliou que as conversas com o governo norte-americano se tornaram “muito mais produtivas” e atribuiu essa mudança diretamente ao interesse de Trump por um acordo que encerre o conflito iniciado em fevereiro de 2022, quando tropas russas invadiram o território ucraniano.
Submarinos que “não apareceram”
Em agosto do ano passado, Trump declarou ter ordenado que dois submarinos nucleares dos EUA se aproximassem da Rússia depois de considerar “altamente provocativas” declarações de Medvedev sobre risco de guerra nuclear. Questionado agora sobre o paradeiro dessas embarcações, o dirigente russo disse apenas: “Ainda não os encontramos”.
Autoridades militares de Moscou, segundo ele, continuam monitorando movimentações navais no Atlântico e no Ártico, mas não identificaram indícios de presença dos submarinos mencionados por Trump.
Perspectiva de vitória russa e preocupação com nova escalada
Desde o início das hostilidades na Ucrânia, Medvedev tem criticado com frequência Kiev e as potências ocidentais, alertando para o risco de o confronto escalar até um cenário nuclear. Na entrevista desta quinta-feira, reafirmou que a Rússia “em breve alcançará vitória militar”, embora não tenha detalhado prazos ou estratégias. O ponto central, ressaltou, é evitar que novos conflitos surjam depois do desfecho da guerra.
“Gostaria que isso acontecesse o mais rapidamente possível”, disse. “Mas é igualmente importante pensar no que acontecerá depois. O objetivo de vencer é impedir futuros confrontos; isso é absolutamente óbvio.”
Situação atual no campo de batalha
Atualmente, forças russas controlam cerca de 20% do território ucraniano. Mesmo assim, Moscou não conquistou toda a região de Donbas, no leste, onde militares ucranianos ainda mantêm aproximadamente 10% do território – algo em torno de cinco mil quilômetros quadrados, de acordo com mapas de domínio público.
O presidente Vladimir Putin continua sendo a instância final nas decisões de política externa e segurança da Rússia. Entretanto, diplomatas estrangeiros avaliam que as declarações de Medvedev fornecem pistas sobre a linha de pensamento predominante na elite do país.
Sem especificar datas, o vice-chefe do Conselho de Segurança afirmou que Moscou pretende intensificar contatos diplomáticos tanto com Washington quanto com Kiev, mas condicionou qualquer avanço a garantias que considere adequadas para a segurança russa.
Ao concluir a entrevista, Medvedev reiterou que acredita ser possível evitar um “apocalipse nuclear” desde que os principais atores do conflito conduzam as conversas com pragmatismo. Segundo ele, a disposição de Trump em negociar “abre uma janela de oportunidades” que não deve ser desperdiçada.
Até o momento, não houve confirmação oficial do governo norte-americano sobre o envio dos submarinos ou sobre os encontros em Abu Dhabi. Autoridades de Kiev também não comentaram publicamente o cronograma das negociações mencionadas pelo presidente dos EUA.
Com a proximidade das reuniões na capital dos Emirados Árabes Unidos, diplomatas aguardam sinais concretos de avanço. Enquanto isso, combates continuam em várias frentes no leste e no sul da Ucrânia, sem indicação de cessar-fogo imediato.




