Seul, 26 de janeiro – O líder norte-coreano, Kim Jong Un, declarou que a Coreia do Norte tem capacidade e disposição para “destruir completamente” a Coreia do Sul se perceber qualquer ameaça à própria segurança. A advertência foi feita nesta quinta-feira (26) durante o encerramento de um congresso do Partido dos Trabalhadores que delineou prioridades políticas para os próximos cinco anos.
Kim reforçou que não pretende retomar o diálogo direto com Seul, mas sinalizou abertura para conversas com Washington, desde que o governo dos Estados Unidos abandone aquilo que ele classificou como “políticas hostis” contra Pyongyang. Segundo o dirigente, o avanço acelerado do programa nuclear e de mísseis balísticos consolidou de forma “irreversível” o status do país como potência nuclear, condição que, em sua avaliação, Washington deve reconhecer para que as negociações sejam retomadas.
Reação de Seul
O Ministério da Unificação da Coreia do Sul considerou “lamentável” a postura norte-coreana de manter as relações intercoreanas em termos de hostilidade. Em nota, a pasta afirmou que continuará trabalhando “pacientemente” para estabilizar a paz na península, mesmo diante das recentes declarações de Pyongyang.
Novo plano militar
Durante o congresso partidário, a Agência Central de Notícias da Coreia (KCNA) informou que Kim Jong Un ordenou o desenvolvimento de novos sistemas de armamentos para fortalecer o que chamou de “exército nuclear”. Entre as prioridades técnicas listadas estão:
- Mísseis balísticos intercontinentais adaptados para lançamento subaquático;
- Ampliação do arsenal de armas nucleares táticas, como artilharia e mísseis de curto alcance voltados especificamente para alvos no território sul-coreano.
Especialistas em segurança regional destacam que, embora a retórica agressiva seja recorrente, ela não necessariamente sinaliza confronto militar iminente. Em vez disso, avaliam que Pyongyang busca reforçar sua posição estratégica no Leste Asiático, amparada tanto por seu arsenal nuclear quanto pelo estreitamento de laços com Moscou e Pequim.
Pressão sobre Washington
Kim argumentou que os testes de mísseis dos últimos anos — que incluem lançamentos de projéteis de alcance intercontinental — tornaram “permanente” o caráter nuclear do Estado norte-coreano. Ele cobrou dos Estados Unidos a suspensão de sanções econômicas e exercícios militares conjuntos com a Coreia do Sul como pré-condição para qualquer retomada de entendimento diplomático.
Washington, por sua vez, não respondeu imediatamente às afirmações de Pyongyang. O governo norte-americano mantém a posição oficial de que procura a desnuclearização completa da península, enquanto reforça seu compromisso de proteção à Coreia do Sul e ao Japão.
Escalada verbal recorrente
Desde o fracasso da cúpula entre Kim Jong Un e o então presidente Donald Trump, em 2019, a diplomacia intercoreana permanece estagnada. Nesse intervalo, Pyongyang intensificou o volume de testes de mísseis e adotou discurso cada vez mais hostil ao governo de Seul. Analistas observam que as fortes declarações de Kim costumam ocorrer em momentos de incerteza internacional, servindo para projetar força interna e pressionar adversários externos.
Apesar da escalada retórica, autoridades sul-coreanas e observadores estrangeiros ressaltam que a possibilidade de um conflito aberto permanece baixa. Ainda assim, a repetição de ameaças nucleares alimenta preocupações na comunidade internacional sobre riscos de erro de cálculo e potencial corrida armamentista na região.
Próximos passos
A Coreia do Norte não divulgou calendário para novos testes de armamentos, mas a KCNA destacou que a modernização de mísseis e ogivas continuará “sem interrupções”. Já Seul reforçou que manterá canais de monitoramento e cooperação com países aliados, ao mesmo tempo em que buscará oportunidades de retomada do diálogo.
A península coreana permanece tecnicamente em estado de guerra, já que o conflito de 1950-1953 terminou com armistício, não com tratado de paz. Nesse contexto, observadores veem a combinação de ameaças explícitas e pedidos de negociação como parte da estratégia norte-coreana para obter concessões diplomáticas e econômicas.
Até o momento, não há previsão de nova rodada de conversas entre Pyongyang, Seul e Washington. Enquanto isso, a comunidade internacional acompanha com atenção os desdobramentos do programa nuclear norte-coreano e suas implicações para a estabilidade regional.




