PEQUIM, 26 de dezembro – A Bolsa de Valores de Xangai anunciou nesta sexta-feira um novo procedimento que facilita o acesso de fabricantes chinesas de foguetes comerciais reutilizáveis ao mercado de capitais. A medida dispensa essas companhias de parte dos requisitos financeiros tradicionais para ofertas públicas iniciais de ações (IPOs) e busca acelerar o desenvolvimento nacional dessa tecnologia, dominada hoje pela norte-americana SpaceX.
Isenção de metas de lucro e de receita
Pelo regulamento recém-divulgado, empresas do setor espacial que trabalham com foguetes reutilizáveis deixam de precisar comprovar níveis mínimos de lucratividade e de faturamento antes de estrear no pregão. Em substituição, deverão atender a marcos tecnológicos como a realização de ao menos um lançamento orbital bem-sucedido utilizando um sistema capaz de ser recuperado e reutilizado.
Na prática, a regra cria uma “pista expressa” para que projetos com grande demanda de capital, mas ainda em fase de validação comercial, consigam captar recursos no mercado doméstico. O princípio é semelhante ao já adotado para companhias de alta tecnologia em outros segmentos estratégicos, como semicondutores e mercado de capitais.
Pressão para reduzir distância em relação aos EUA
A iniciativa responde à meta de Pequim de diminuir a vantagem dos Estados Unidos no domínio da recuperação do primeiro estágio do foguete – o chamado booster. Hoje, o Falcon 9, da SpaceX, permanece como o único veículo espacial reutilizável lançado em escala regular para colocar satélites em órbita. Esse monopólio é considerado por autoridades chinesas um potencial risco à segurança nacional, sobretudo para missões que envolvem grandes constelações de satélites em órbita baixa da Terra.
A Estratégia Nacional de Desenvolvimento Espacial da China prevê milhares de artefatos orbitais nas próximas décadas, reforçando a necessidade de lançamentos frequentes e de menor custo. Foguetes reutilizáveis são vistos como peça fundamental para alcançar esse objetivo.
Primeiros resultados domésticos
No início de dezembro, a LandSpace, principal companhia privada de lançamento de foguetes do país, tornou-se a primeira entidade chinesa a executar um teste completo de seu modelo de foguete reutilizável, o Zhuque-3. O voo demonstrou a capacidade de colocar um satélite em órbita utilizando a nova tecnologia, embora não tenha concluído a fase crucial de recuperação do propulsor.
Mesmo com a falha nessa etapa, o marco obtido já atende ao critério principal definido pela Bolsa de Xangai. A empresa informou que pretende realizar uma segunda missão do Zhuque-3 em meados de 2026, desta vez com a meta declarada de recuperar integralmente o booster. Segundo a LandSpace, o caráter intensivo em capital do desenvolvimento de lançadores torna indispensável o acesso rápido ao mercado acionário doméstico para competir com a SpaceX em preço e frequência de lançamentos.
Critérios tecnológicos detalhados
De acordo com as diretrizes, as candidatas à via rápida deverão apresentar provas documentadas de:
- lançamento orbital bem-sucedido com tecnologia de foguete reutilizável;
- plano técnico de recuperação do primeiro estágio;
- cronograma de missões futuras consistentes com a estratégia espacial nacional.
Não há, contudo, a exigência explícita de que o estágio já tenha sido recuperado com sucesso. Basta que a decolagem e o posicionamento do satélite tenham utilizado um veículo concebido para reutilização.
Integração com projetos estatais
Outro ponto das novas regras estabelece que lançamentos que atendam missões nacionais ou integrem programas espaciais conduzidos pelo governo receberão tratamento prioritário no processo de listagem. O dispositivo reforça o alinhamento entre a expansão do setor privado e os objetivos estratégicos de longo prazo da China, entre eles a construção de redes de comunicação, observação da Terra e navegação via satélite.
Desde o anúncio do teste da LandSpace, outras companhias, tanto estatais quanto privadas, intensificaram planos para desenvolver veículos reutilizáveis. A expectativa é de que a concorrência interna reduza custos, aumente a frequência de voos e crie um ecossistema de fornecedores capaz de sustentar a ambição chinesa de disputar contratos comerciais globais.
Perspectivas para o mercado
Embora ainda não haja um cronograma público para os primeiros registros de IPO sob o novo mecanismo, analistas do setor preveem movimentação considerável já no próximo ano. O interesse de investidores chineses por empresas aeroespaciais cresce na mesma proporção em que o governo sinaliza apoio político e regulatório.
Ao remover barreiras contábeis para companhias que já comprovam avanços técnicos, a Bolsa de Xangai espera posicionar o país de forma mais competitiva em um mercado dominado por players estrangeiros. Caso os projetos alcancem maturidade, a oferta de lançamentos com tecnologia reutilizável pode reduzir custos e ampliar a participação da China no segmento global de serviços espaciais.
As diretrizes entraram em vigor imediatamente após a publicação e já podem ser adotadas por toda empresa que comprove atendimento aos requisitos listados.
Com informações de InfoMoney
