WASHINGTON – A liberação de centenas de páginas de correspondências e registros ligados a Jeffrey Epstein revelou em detalhes a aproximação do financista com nomes influentes dos negócios, da política, da academia e do entretenimento. O material, analisado por jornalistas e pesquisadores, descreve como o condenado por crimes sexuais frequentava círculos de poder ao longo de duas décadas, oferecendo dinheiro, viagens em avião particular, jantares luxuosos e, em diversos casos, acesso a sexo.
Rede de contatos de alto nível
Entre os e-mails divulgados, um de 2012 mostra Elon Musk questionando Epstein sobre “qual dia/noite será a festa mais selvagem na sua ilha?”. O empresário afirmou em rede social ter trocado poucas mensagens com o financista e recusado convites para a ilha nas Ilhas Virgens.
O ex-presidente Bill Clinton e o ator Kevin Spacey aparecem em registros de 2002, quando voaram com Epstein em missão filantrópica pela África. Outros nomes citados incluem Donald Trump; o cineasta Woody Allen; o linguista Noam Chomsky; Kenneth Starr, então conselheiro independente na investigação contra Clinton; Kathryn Ruemmler, ex-advogada da Casa Branca de Barack Obama que deixou o Goldman Sachs após a divulgação dos documentos; Steve Bannon, aliado político de Trump; o escritor Deepak Chopra; o produtor Barry Josephson; Larry Summers, ex-secretário do Tesouro dos EUA; o ex-príncipe Andrew; a ex-duquesa de York Sarah Ferguson; a princesa herdeira Mette-Marit, da Noruega; além de banqueiros e gestores de fundos.
Conversa sobre clima político
James E. Staley, que renunciou à presidência do Barclays em meio a acusações sobre seus laços com Epstein, trocou e-mails com o financista em 2014. No texto, Staley avaliou que a elite norte-americana dificilmente sofreria revolta popular semelhante aos protestos registrados naquele ano no Brasil. Para ele, “o grupo que deveria estar nas ruas foi comprado. Por Jay-Z”.
Mensagens de teor sexual
No acervo, investigadores encontraram referências explícitas a meninas, brinquedos sexuais e práticas violentas. Em e-mail de 2014, um remetente cuja identidade foi suprimida agradece a Epstein por “uma noite divertida — sua garotinha mais nova foi um pouco travessa”. Já em 2009, o financista escreveu a Sultan Ahmed bin Sulayem, empresário dos Emirados Árabes Unidos: “Adorei o vídeo da tortura”.
Relatos triviais também se misturam a potencial material comprometedor. Em 2011, um assistente comunicou que “cocos jovens e doces da Tailândia” haviam chegado “para que você não precise beber sucos de coisas velhas e peludas”.
Alimentando teorias conspiratórias
A combinação de celebridades, crimes sexuais e poder político intensificou especulações. Referências recorrentes a “pizza” em diálogos entre Epstein e seu urologista, Harry Fisch, reacenderam a desacreditada teoria “Pizzagate”, segundo a qual democratas operariam rede de abuso infantil em Washington. Fisch, contatado por e-mail, não respondeu.
Vídeos recém-divulgados da ala prisional onde Epstein foi encontrado morto em 2019 mostram uma figura não identificada próxima à cela, fato que levou usuários de redes sociais a sugerir assassinato ou até forjar a morte. Laudo oficial manteve a conclusão de suicídio.
Reações no meio acadêmico e político
Para Nicole Hemmer, professora de história da Universidade Vanderbilt, os documentos oferecem “um nível de corrupção que o público agora está vendo completamente”, evidenciando a conivência de parte da elite. O deputado democrata Ro Khanna, que apoiou lei exigindo a divulgação dos arquivos, declarou ser necessário “perguntar como produzimos uma elite tão imatura, imprudente e arrogante”.
Marjorie Taylor Greene, deputada republicana que pressionou pela abertura dos registros, afirmou que os papéis “dão visão interna de um mundo que todos pensavam que existia” e criticou a ausência de prisões de amigos ou associados masculinos de Epstein.
Consequências judiciais limitadas
Apesar do convívio com presidentes, membros de gabinetes e investidores, a influência de Epstein em políticas públicas dos Estados Unidos não ficou comprovada. O círculo do financista não incluía promotores federais ou juízes que pudessem ter impedido sua trajetória. Preso em 2019 sob acusação de tráfico sexual de menores, ele foi encontrado morto enquanto aguardava julgamento. Sua colaboradora Ghislaine Maxwell segue presa.
A análise dos arquivos deve continuar nos próximos meses. Especialistas buscam novas evidências de crimes ou omissões que expliquem como Epstein manteve, por anos, proteção social e acesso a personalidades de alto escalão.
