Brasília – O ataque realizado pelos Estados Unidos contra a Venezuela no sábado, 3, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro, expôs fraturas políticas na América do Sul. Governos da região reagiram de forma contrastante: enquanto Brasil, Colômbia e Uruguai condenaram a ação e pediram intervenção da Organização das Nações Unidas (ONU), Argentina, Paraguai e Equador celebraram a queda do dirigente venezuelano e defenderam o reconhecimento imediato da vitória da oposição nas eleições presidenciais de 2024.
Condenações e apelos a organismos internacionais
Brasil. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou o ataque como “flagrante violação do direito internacional” e alertou para o “precedente extremamente perigoso” de intervenções unilaterais no continente. Em nota oficial, Lula declarou que “atacar países em desrespeito à lei internacional abre caminho para um mundo de violência, caos e instabilidade”. O Palácio do Planalto solicitou que o Conselho de Segurança da ONU se reúna com urgência para discutir a crise.
Colômbia. Aliado político de Caracas, o presidente Gustavo Petro repudiou “energicamente” a ofensiva norte-americana, determinou o reforço de tropas na fronteira e ofereceu assistência humanitária caso haja fluxo expressivo de refugiados. “Os conflitos internos são resolvidos pelos próprios povos em paz”, afirmou Petro, primeiro chefe de Estado de esquerda do país.
Uruguai. O presidente Yamandú Orsi, também de esquerda, adotou tom mais moderado. “Os fins não justificam os meios”, escreveu no X (antigo Twitter), acrescentando que Montevidéu apoiará iniciativas multilaterais em busca de solução pacífica.
Países que saudaram a queda de Maduro
Argentina. O presidente Javier Milei celebrou a operação com seu habitual “Viva la libertad, carajo” e prometeu “apoio total” à moção apresentada por Washington em fóruns internacionais. Para Buenos Aires, a captura de Maduro representa “avanço decisivo contra o narco-terrorismo” e consolidará o resultado eleitoral de 2024, quando o opositor Edmundo González Urrutia saiu vitorioso.
Equador. O presidente Daniel Noboa afirmou que “a hora de todos os criminosos narcochavistas está chegando” e declarou apoio à líder opositora María Corina Machado, a González e “ao povo venezuelano” na reconstrução do país. “Vocês têm um aliado no Equador”, publicou na rede social X.
Paraguai. O mandatário Santiago Peña descreveu a prisão de Maduro como “boa notícia para a região” e ofereceu cooperação “na transição para um regime de plenas liberdades”.
Outras posições na região
Bolívia. O governo de centro-direita manifestou apoio “ao povo venezuelano na recuperação da democracia” e atribuiu a crise ao colapso do Estado de Direito em Caracas, marcado, segundo La Paz, pela captura do aparato estatal por “estruturas criminosas”.
Peru. O presidente interino José Jerí, que considera Maduro ilegítimo, desejou “rápida restauração da ordem interna” e anunciou plano para facilitar o retorno de mais de um milhão de venezuelanos residentes em território peruano, “independentemente da condição migratória”. Segundo Jerí, a repatriação permitirá o reencontro de famílias separadas pelo êxodo.
Chile vive transição com discursos opostos
Chile. Em fim de mandato, o presidente Gabriel Boric condenou o ataque, reiterou ser crítico do governo Maduro, mas defendeu solução pacífica “conforme o direito internacional”. Já o presidente eleito José Antonio Kast, que assume em março, comemorou a captura do líder venezuelano, chamando-a de “ótima notícia” e conclamando líderes da região a “colaborar para o retorno dos venezuelanos ao seu país”. Kast responsabilizou o “regime narco-ilegítimo” pelo deslocamento de mais de oito milhões de cidadãos e pela desestabilização regional.
Tensão sobre próximos passos dos EUA
O episódio também gerou incerteza quanto à estratégia do governo norte-americano. O presidente Donald Trump, em pronunciamento na Casa Branca, declarou que “outras nações devem fazer algo” e enviou recados a Colômbia, Cuba e México. Países que condenaram a ação temem nova intervenção militar no continente e defendem retorno ao diálogo político interno na Venezuela.
Mercados monitoram impacto
Analistas acompanham os reflexos da ofensiva, sobretudo no mercado de petróleo — principal riqueza venezuelana —, além de potenciais efeitos sobre metais preciosos. Até o momento, não há indicação de quando o governo interino de Caracas convocará novas eleições ou libertará presos políticos.
Sem consenso entre vizinhos, a crise venezuelana volta a colocar em evidência divergências históricas na América do Sul quanto ao papel de potências externas e ao respeito ao princípio de não intervenção.
Com informações de InfoMoney




