A combinação de política monetária e processo eleitoral será o eixo central das estratégias de alocação no mercado brasileiro em 2026, avalia Marcos Peixoto, sócio e portfólio manager da XP Asset. Em entrevista ao programa Stock Pickers, o gestor defendeu que não faz mais sentido analisar juros e eleição de forma isolada, pois os dois temas caminham juntos na definição dos preços de ativos.
Peixoto lembra que o Banco Central (BC) deverá iniciar o ciclo de cortes da Selic apenas em março do próximo ano, de maneira “gradual e cautelosa”. A incerteza, afirma, surge porque esse período de afrouxamento monetário coincidirá com o início da corrida eleitoral. “Quando estivermos discutindo a terceira ou quarta redução de juros, o debate político já estará no centro das atenções”, disse.
Risco de interrupção no meio do ciclo
Segundo o gestor, existe a possibilidade de o BC interromper ou até reverter o corte dos juros caso o resultado das urnas gere volatilidade acentuada. “Você pode estar no meio do ciclo de queda e o Banco Central ter de parar, ou até subir de novo, dependendo da reação do mercado ao resultado eleitoral”, afirmou.
Nesse cenário, Peixoto descreve um ambiente “binário” para os ativos domésticos. Hoje, os preços refletem uma disputa equilibrada, próxima de 50% para cada lado. Se a disputa pender para um dos extremos — provocando euforia ou depressão —, oportunidades mais claras de investimento devem surgir, avalia. Até lá, a recomendação é manter carteiras defensivas e buscar assimetrias em casos específicos.
Foco em fundamentos microeconômicos
Enquanto o pano de fundo macro permanece incerto, Peixoto reforça que os próximos meses continuarão dominados por fatores micro, como revisão de lucros, eficiência operacional e valuation. O gestor recorda que diversas empresas sofreram perdas expressivas nos últimos anos por falhas de execução e mudanças de dinâmica setorial. “Muita tese quebrou, houve revisões de lucro e alterações no comportamento competitivo”, comentou. Esse processo, porém, deixou vários papéis domésticos mais baratos e, na visão dele, com menor risco de novas quedas abruptas.
Exportadoras e estatais no radar
Para companhias exportadoras e de commodities, Peixoto evita conclusões simplistas. Ele argumenta que a valorização do dólar não garante retorno, caso os preços das commodities cedam no mercado internacional. “Não adianta comprar commodity achando que o dólar vai subir se a cotação da própria commodity cair. Uma coisa anula a outra”, explicou.
No momento, o gestor ainda enxerga “assimetria ruim” nesses papéis, mas não descarta alterações nessa leitura ao longo de 2026, à medida que o cenário fique mais claro. As estatais também são observadas com cautela. Em 2022, a XP Asset aproveitou distorções para comprar ações de Banco do Brasil (BBAS3) e Petrobras (PETR4), movimento que gerou retorno positivo. Agora, contudo, Peixoto avalia que a petrolífera já negocia com múltiplos semelhantes aos de empresas privadas, o que reduziria a margem para ganhos baseados apenas no “desconto eleitoral”.
BC conservador e pressão do mercado
Um dos pontos centrais para 2026, na visão do gestor, é a postura conservadora do Banco Central. Ele entende que a autoridade monetária mostra pouca disposição para acelerar cortes diante das incertezas políticas. “O Banco Central não vai exagerar. Segurou até agora e deve continuar com essa cabeça”, declarou, citando discursos recentes do presidente da instituição.
Curiosamente, avalia Peixoto, a maior pressão por juros mais baixos parte atualmente do próprio mercado financeiro — e não do governo. “Vejo mais pressão da Faria Lima, de gestores aplicados, do que do Executivo”, comentou. Essa dinâmica reforça a percepção de que o BC agirá com prudência, mesmo diante do arrefecimento da atividade econômica.
Carteira mais flexível para 2026
Diante desse contexto, a XP Asset defende portfólios preparados para mudanças rápidas. “Não dá para adivinhar como vamos chegar em outubro”, disse Peixoto, referindo-se ao mês do primeiro turno. O gestor afirma que a equipe permanecerá atenta a eventuais distorções de preços que possam surgir nos meses que antecedem a eleição. Até lá, a prioridade é preservar capital e aproveitar oportunidades pontuais, mantendo a liquidez suficiente para ajustes rápidos.
Com informações de InfoMoney




