Um deslize cometido há 16 anos segue sendo citado por André Moraes como o ponto de virada que redefiniu sua relação com risco, liquidez e controle emocional. O trader expôs detalhes do episódio no sétimo capítulo da quarta temporada do programa Mapa Mental, veiculado no canal GainCast, ao ser questionado sobre o momento mais desafiador de sua carreira.
Mercado vira contra posição lucrativa
Moraes recordou-se de setembro de 2007, poucos meses depois de abandonar definitivamente a engenharia para se dedicar apenas às operações financeiras. Naquele dia, investidores aguardavam o resultado de uma reunião do Federal Reserve (Fed). Confiante de que o movimento do banco central norte-americano sustentaria a tendência de alta, o trader acumulava ganhos considerados expressivos.
Entretanto, logo após o comunicado da autarquia, a reação dos preços foi exatamente o oposto do que ele projetara. Incapaz de encerrar as posições com a velocidade necessária, devolveu todo o lucro e ainda amargou perdas adicionais. “Somando o que eu tinha ganhado e o que devolvi, o prejuízo chegou a cerca de R$ 50 mil”, relatou durante o programa.
Falha de liquidez amplia prejuízo
Para o especialista, o equívoco não se restringiu à leitura do cenário macroeconômico. O problema central foi a falta de liquidez naquele momento específico. Segundo ele, o fluxo de ordens secou logo após o anúncio do Fed, impedindo que fosse possível zerar a posição no preço previsto. “Eu simplesmente não consegui sair”, afirmou.
O incidente, pondera Moraes, ensinou que prever a direção do mercado é apenas parte da equação; é indispensável avaliar se haverá contrapartes suficientes para executar a ordem quando a operação exigir. A experiência, destaca, foi decisiva para que conseguisse atravessar a crise internacional de 2008 sem ficar exposto a perdas que comprometessem o capital.
Lição reforçada no Joesley Day
Anos mais tarde, em 18 de maio de 2017 — data que ficou conhecida como “Joesley Day”, quando delações envolvendo o empresário Joesley Batista provocaram forte queda na Bolsa —, Moraes viveu novo teste de resistência. Dessa vez, a principal falha não foi operacional, e sim de comunicação.
O trader admitiu que, sob barulho e tensão, não conseguiu repassar orientações de forma clara aos clientes que o seguiam. “Estava tudo muito confuso, havia gritaria. Eu me comuniquei mal”, reconheceu. O episódio reforçou a percepção de que, além de técnica de negociação, o profissional precisa manter postura serena para orientar quem depende de suas análises.
Pandemia coloca aprendizados em prática
O acúmulo de experiências negativas mostrou resultado durante a derrocada dos mercados no início da pandemia de covid-19, em março de 2020. Com circuit breakers sucessivos na B3 e incerteza global, Moraes optou por antecipar o retorno às mesas de operação mesmo antes do horário habitual. O objetivo, contou, era oferecer suporte imediato aos clientes.
Naquela semana, orientou a liquidação de posições antes que a queda se aprofundasse. “Consegui tirar todos da operação a tempo”, relatou, destacando que o comportamento foi diametralmente oposto ao do Joesley Day. Para ele, a diferença esteve na preparação prévia e na consciência de que a serenidade do analista se reflete diretamente nas decisões dos investidores que o acompanham.
Aprendizado nasce dos períodos de tensão
Moraes reforçou que grandes avanços raramente ocorrem durante fases de ganhos contínuos. Segundo o trader, é a exposição a situações inéditas — como a virada repentina de 2007 ou o pânico de 2017 — que revela fragilidades e provoca evolução. “Quando tudo dá certo, a gente não aprende nada”, resumiu.
Desde o prejuízo de R$ 50 mil, ele afirma que a gestão de risco passou a considerar, além de stop loss, variáveis como profundidade do mercado, horário de anúncio de indicadores e custos de eventual desmontagem de posição. A abordagem, pontua, ganhou estrutura mais prudente, focada na preservação do capital e na execução eficiente das ordens.
Trajetória moldada por erros
Ao encerrar a entrevista, Moraes destacou que mirar longo prazo e manter disciplina são mais importantes que buscar ganhos extraordinários em um único pregão. O deslize de 2007, conclui, transformou-se em divisor de águas que orienta até hoje cada tomada de decisão — lição que, reforça, não veio sem custo, mas se mostrou fundamental para a continuidade de sua carreira no mercado financeiro.




