O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, surpreendeu governos e analistas internacionais no sábado, 3, ao declarar que Washington avalia “administrar” a Venezuela após a operação militar que resultou na captura de Nicolás Maduro. A afirmação foi classificada como um “terremoto político” pelo cientista político Maurício Santoro, doutor pelo Iuperj e colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha do Brasil, em entrevista ao InfoMoney.
Primeira menção a gestão direta e petróleo
Segundo Santoro, foi a primeira vez que Trump indicou publicamente a possibilidade de os EUA assumirem a gestão de um país sul-americano, além de sinalizar interesse na indústria petroleira venezuelana. Até então, a Casa Branca limitava-se a sanções e pressões diplomáticas sobre o governo de Caracas.
Ataque aéreo e prisão de Maduro
Horas antes da declaração, um ataque aéreo maciço ao complexo militar de Fuerte Tiuna, em Caracas, danificou edifícios estratégicos e permitiu a captura de Maduro por forças norte-americanas. A ofensiva encerrou tentativas de negociação para que o presidente venezuelano aceitasse o exílio, alternativa rejeitada por ele.
Com a recusa de Maduro, autoridades norte-americanas passaram a considerar um cenário “mais flexível”, no qual a vice-presidente Delcy Rodríguez, reconhecida por ter estabilizado a economia nos últimos anos, poderia assumir interinamente o governo, relatou Santoro.
Desafios de ocupação
Para o pesquisador, administrar a Venezuela significaria encarar “enorme crise econômica, infraestrutura fragilizada e dimensões territoriais que tornam qualquer ocupação extremamente complexa”. O país tem 916 mil km² e mais de 28 milhões de habitantes, fatores que, na avaliação de Santoro, dificultariam uma ação prolongada de forças estrangeiras.
Crítica a Corina Machado e cenário interno
Trump também fez referência inédita à líder da oposição Corina Machado, vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2025. O presidente norte-americano disse considerar Machado “uma boa pessoa”, mas afirmou que ela “não possui apoio ou respeito interno suficientes” para governar. A crítica surpreendeu analistas, que aguardavam sinalização de apoio dos EUA a grupos oposicionistas.
Santoro lembrou que a expectativa era de “algum tipo de negociação para que a oposição assumisse o poder”. Dentro desse contexto, Edmundo González, vencedor das eleições venezuelanas de 2024 e aliado direto de Corina Machado, vinha sendo citado como nome provável para liderar a transição. O pesquisador destacou ainda a reação do presidente francês Emmanuel Macron, que comemorou a queda de Maduro e, “quase imediatamente”, mencionou o embaixador González como figura central neste novo cenário.
Histórico dos EUA em gestões pós-conflito
Santoro avaliou que, apesar do ineditismo da fala de Trump na América do Sul, Washington já comandou administrações temporárias em países derrotados em guerras, como Alemanha e Japão após 1945, além de intervenções na América Central no início do século XX. O “currículo histórico” pode indicar, na visão do especialista, que a mudança de postura é possível, embora o próprio Trump tenha histórico de declarações voláteis.
Resposta do Brasil
No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva divulgou nota considerada “técnica e institucional” por Santoro. O comunicado do Palácio do Planalto evitou citar nominalmente Maduro ou Trump e reforçou princípios do direito internacional como soberania e autodeterminação dos povos.
Segundo o cientista político, a escolha das palavras evidencia tentativa de tratar a crise como questão ampla, sem personalismos. Ainda assim, Santoro reconhece que Lula enfrenta “quebra-cabeça político”, pois parte de seu governo se distanciou de Maduro após denúncias de repressão à oposição, enquanto o Partido dos Trabalhadores (PT) mantém apoio histórico ao regime bolivariano, posição reiterada na nota oficial da legenda.
Com a captura de Maduro, a possibilidade de um governo interino liderado por Delcy Rodríguez e o debate sobre eventual administração norte-americana, o futuro político da Venezuela permanece incerto. Especialistas monitoram os próximos passos de Washington, de atores regionais e da comunidade internacional diante da mudança abrupta no comando em Caracas.
Com informações de InfoMoney




