No fim de maio, durante reunião no Salão Oval, o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pediu ao secretário de Estado, Marco Rubio, ideias para aumentar a pressão sobre o governo de Nicolás Maduro. O encontro marcou o início de uma estratégia que passou a unir três temas – acesso ao petróleo venezuelano, ações contra cartéis de drogas e política migratória – em uma campanha militarizada contra Caracas.
Diretriz secreta autorizou uso de força naval
Dois meses após a conversa, em 25 de julho, Trump assinou uma ordem sigilosa que instruía o Pentágono a lançar operações contra cartéis latino-americanos, com ênfase em ataques marítimos. Embora a justificativa formal fosse o combate ao narcotráfico, o documento concentrou poderio naval norte-americano próximo à costa venezuelana. A medida é apontada por autoridades como o primeiro texto oficial do ex-presidente que autoriza ataques desse tipo.
A chamada “Fase Um” da operação ficou a cargo do SEAL Team Six, responsável por alvejar embarcações suspeitas no Caribe e no Pacífico oriental. A possível “Fase Dois” – ainda sem cronograma – preveria incursões terrestres com unidades da Força Delta do Exército.
105 mortos em alto-mar e quase bloqueio de petroleiros
Desde o início de setembro, a campanha tornou-se a etapa mais letal da pressão sobre Maduro: 29 ataques contra barcos deixaram ao menos 105 mortos, de acordo com dados internos do governo norte-americano. Advogados especializados em direito internacional classificam as ações como possíveis crimes de guerra, apontando ausência de protocolos para lidar com sobreviventes – lacuna também identificada pela própria equipe do secretário de Defesa, Pete Hegseth.
Além dos disparos, a Marinha dos EUA passou a interceptar navios-tanque que entram ou saem de portos venezuelanos, provocando um quase bloqueio à exportação de petróleo. Caracas alega que a operação é um ato “belicista e colonialista”.
Petróleo no centro das disputas
O petróleo venezuelano, segundo fontes que participaram das reuniões, foi decisivo para o escalar da crise. A Chevron detém autorização única para produzir e exportar o recurso a partir de joint ventures no país. Parlamentares cubano-americanos, base eleitoral importante para Trump, exigiam o fim dessa licença para endurecer o cerco contra Maduro.
Temendo que a China ocupasse o espaço deixado pela petrolífera norte-americana, Trump resistiu inicialmente. A pressão aumentou quando congressistas ameaçaram barrar o principal projeto legislativo doméstico da Casa Branca. A licença expirou em 27 de maio sem renovação; cinco semanas depois o texto foi aprovado no Capitólio. Em julho, o governo reviu a posição e autorizou novo documento ao Tesouro, mas o movimento já não impediu a adoção da estratégia militar.
Rubio e Miller alinhados
O senador Marco Rubio, filho de imigrantes cubanos, e Stephen Miller, assessor de segurança interna da Casa Branca, lideraram a formulação das medidas. Rubio via na derrubada de Maduro uma oportunidade de enfraquecer também o aliado cubano. Miller, arquiteto das políticas anti-imigração de Trump, buscava meios de acelerar deportações em massa utilizando a Lei dos Inimigos Estrangeiros, de 1798.
Em março, Trump recorreu a essa legislação ao emitir ordem executiva que classificava a quadrilha venezuelana Tren de Aragua como instrumento de Maduro e “invasão” ao território norte-americano. Mais de 250 venezuelanos foram enviados ao Centro de Confinamento do Terrorismo (CECOT), em El Salvador, após acordo de cerca de US$ 5 milhões firmado por Rubio com o presidente salvadorenho Nayib Bukele. Tribunais dos EUA, porém, suspenderam parte das deportações, alegando que imigração ilegal não configura invasão militar.
Planejamento restrito e pouca supervisão
A elaboração da ordem de 25 de julho ocorreu em círculo estreito e sem a tradicional consulta entre agências federais. Assessores mantiveram fora do processo advogados militares e especialistas do Conselho de Segurança Nacional, o que resultou em falhas como a ausência de diretrizes para resgate ou custódia de tripulantes atacados.
Vídeos divulgados por organizações civis mostram, por exemplo, sobreviventes erguendo os braços para sinalizar rendição antes de nova rajada de metralhadora disparada por helicóptero naval norte-americano.
Justificativa oficial e reação de Maduro
Anna Kelly, porta-voz da Casa Branca, declarou que a política do governo “busca manter esse veneno fora de nossas comunidades”. Rubio reiterou em 19 de dezembro que os ataques pretendem “instalar o medo da morte” em quem cogitar transportar drogas. Ele lembrou que o Departamento de Justiça já apresentou, em 2020, acusação por narcoterrorismo contra Maduro, baseada em suposta colaboração com produtores colombianos de cocaína.
O presidente venezuelano afirma que se trata de “pretexto para uma guerra”, enquanto opositores descrevem a tática dos EUA como “diplomacia das canhoneiras”. Até o momento, Washington não tornou públicas as evidências que ligariam todas as embarcações atingidas ao tráfico de entorpecentes.
Com o acúmulo de mortos no mar, a mobilização de navios de guerra e a ameaça de apreensões de petroleiros, a tensão entre os dois países alcançou o patamar mais alto desde que Trump assumiu o cargo em 2017. Não há sinais de recuo: Rubio e Miller já discutem possíveis operações terrestres, enquanto o Tesouro estuda novas sanções para estrangular receitas de Caracas.
Nenhuma data foi fixada para encerrar a ofensiva. Por ora, o governo norte-americano mantém a diretriz de julho em vigor, e militares seguem autorizados a abrir fogo contra qualquer barco que a inteligência relacione a organizações classificadas como narcoterroristas.
Com informações de InfoMoney




