Disputas comerciais, tensões diplomáticas e mudanças regulatórias passaram a influenciar de forma decisiva o caminho de startups e o fluxo global de capital de risco. Professores e gestores de fundos identificam um deslocamento do dinheiro, da infraestrutura e até dos planos de expansão das empresas de tecnologia em direção a países considerados mais previsíveis, enquanto mercados vistos como arriscados perdem espaço.
Geopolítica deixa de ser tema periférico
O economista Marcio Sette Fortes, professor de Relações Internacionais do Ibmec-RJ, observa que a análise geopolítica deixou de ser acessória e migrou para o centro das decisões corporativas. “É preciso cruzar dados, avaliar tendências e estimar cenários antes de planejar qualquer investimento”, afirma. Segundo ele, o ambiente internacional se tornou mais instável, com impacto direto sobre custo de capital, acesso a mercados e viabilidade de expansão.
Relatório do Fórum Econômico Mundial sustenta essa avaliação. No Global Risks Report 2026, o confronto geoeconômico aparece como o principal risco para os próximos dois anos, superando conflitos armados, eventos climáticos extremos, polarização social e desinformação. Metade dos entrevistados espera um cenário “turbulento”, 40% preveem instabilidade, 9% apostam em estabilidade e apenas 1% acredita em um período de calmaria.
Choque econômico antecede tensão política
Marcelo Nakagawa, professor de Inovação e Negócios Digitais do Insper, lembra que as startups sentiram primeiro o aperto econômico. “Houve um momento em que o dinheiro era muito barato em vários países. Com a chegada da pandemia, a inflação subiu nos Estados Unidos, no Brasil e em outras regiões, e as taxas de juros acompanharam”, explica. O capital, outrora abundante, passou a circular de forma restrita, elevando a seletividade dos investidores justamente quando o ambiente global começava a se mostrar mais incerto.
A escalada de tensões entre grandes potências intensificou o quadro. “Falamos de 25 a 30 anos de mudança com a emergência da China; o acirramento ficou mais evidente no segundo governo Trump”, diz Nakagawa. Esse cenário geopolítico transforma escolhas que antes eram apenas técnicas em decisões estratégicas, principalmente no acesso a insumos essenciais como baterias, semicondutores e chips, dependentes de cadeias produtivas sensíveis.
Recursos críticos entram no radar
A disputa por minerais estratégicos e por infraestrutura de dados tornou-se central. Interrupções em cadeias de semicondutores, nuvem e inteligência artificial podem comprometer a capacidade de crescimento de empresas de tecnologia, obrigando fundadores a considerar logística, alianças e localização de servidores antes de escalar produtos.
Recalibragem do capital de risco
Do ponto de vista dos investidores, a geopolítica agora integra a planilha de risco. Álvaro Filpo, sócio-fundador da Fabrica Ventures, lembra que, até 2023, cerca de 50% a 55% do venture capital global ficava nos Estados Unidos. “Nos últimos anos, esse percentual aumentou, impulsionado pela concentração de aportes em inteligência artificial”, afirma. Segundo ele, a IA exige grandes somas tanto para desenvolver modelos quanto para manter data centers e comprar semicondutores, o que faz o capital permanecer em território norte-americano.
Enquanto isso, a retração de investimentos internacionais na China se intensificou. “Havia fundos norte-americanos e capital institucional de vários países alocados na China, mas isso acabou. O dinheiro secou”, diz Filpo. Ele atribui o recuo à maior interferência estatal e à insegurança regulatória, fatores que elevaram o risco percebido por gestores de portfólio.
Esse duplo movimento – fuga de recursos de determinados mercados e concentração em geografias consideradas seguras – reforça a centralidade dos Estados Unidos no ecossistema de inovação. Grandes desenvolvedoras de IA, como OpenAI e Anthropic, e empresas de infraestrutura de data centers estão instaladas no país, atraindo capital e talentos.
Decisões estratégicas mais complexas
Para startups que operam com tecnologias de ponta, escolher onde abrir escritórios, hospedar dados ou captar recursos passou a depender tanto do modelo de negócios quanto do ambiente político. A soberania de dados e regulações digitais adicionam novas camadas de complexidade, reduzindo a previsibilidade de expansão global.
Fortes, do Ibmec-RJ, afirma que fundadores e investidores passaram a monitorar índices políticos, regulatórios e macroeconômicos com a mesma atenção dedicada às métricas tradicionais de mercado. “A inovação continua global, mas as condições para escalar deixaram de ser neutras”, conclui.
Embora não exista indicativo de retração definitiva da inovação, especialistas consideram que a influência da geopolítica sobre capital, infraestrutura e talento deve se manter determinante até 2026, exigindo planejamento mais sofisticado das empresas de tecnologia.




