São Paulo – Estruturas de resorts de alto padrão e instalações de grandes eventos esportivos nos Estados Unidos foram erguidas com madeira proveniente de extração irregular na Amazônia, aponta relatório do Environmental Investigation Agency (EIA). A nova etapa da investigação, que será divulgada na próxima terça-feira, detalha a participação de fazendas e serrarias do Pará em um esquema que teria movimentado 25 mil m³ de toras entre 2022 e 2025, volume suficiente para encher cerca de 830 contêineres marítimos.
Como o esquema funciona
Segundo o EIA, tudo começa em propriedades privadas na floresta paraense. As fazendas Pinheiros e Odila estão no centro da apuração. Imagens de satélite mostram que as autorizações de manejo florestal concedidas pelos órgãos ambientais eram muito superiores à quantidade real de árvores derrubadas legalmente. A discrepância sugere “lavagem” de madeira: extrai-se a tora de áreas não licenciadas, possivelmente terras indígenas como a TI Munduruku, e usa-se o crédito autorizado para dar aparência legal ao produto.
Na Fazenda Odila, o proprietário recebeu permissão para retirar 16.921 m³ entre 2021 e 2022. Fotografias de alta resolução registraram somente uma pequena estrada, incapaz de explicar o volume declarado, equivalente a um trem de carga de três quilômetros. Mesmo assim, as toras foram vendidas a 11 serrarias – dez delas já autuadas pelo Ibama ou pelo governo do Pará – e, depois, repassadas a seis exportadoras brasileiras multadas anteriormente pelo instituto.
A Fazenda Pinheiros já era alvo de ação do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) por garimpo ilegal em 2022 e foi embargada pelo Ibama em 2024. Antes do bloqueio, porém, a autorização liberou 38.516 m³, ou 1.284 cargas de caminhão. O relatório aponta que a quantidade de ipê-roxo descrita nos documentos era até 16 vezes maior que a média encontrada no Pará (0,5 m³ por hectare versus mais de 3 m³ declarados).
Destino final: luxo à beira-mar e Fórmula 1
Parte da madeira de origem duvidosa chegou à Global Forest Lumber Company, importadora norte-americana que mantém marcas próprias de produtos de alto valor. Uma dessas marcas, a Maximo, forneceu ipê para:
- deques de um resort da rede Marriott em Pompano Beach, Flórida;
- um hotel Hyatt em Miami;
- a área VIP do Grande Prêmio de Fórmula 1 de Miami, em 2023.
Fotos e publicações nas redes sociais das próprias empresas comprovaram as entregas, segundo o EIA. Em nota, a Global Forest afirmou “levar as denúncias a sério”, garantiu operar dentro da lei e se colocou à disposição das autoridades para assegurar transparência na cadeia de suprimentos.
Na Europa, importadoras instaladas na Itália, Bélgica e Holanda também adquiriram lotes de ipê e cumaru do Pará. Após a divulgação das suspeitas, o governo holandês multou uma empresa local por violar o Regulamento Europeu da Madeira, que exige procedimentos rigorosos de diligência para coibir produtos florestais ilícitos.
Falhas no controle estadual
O Ministério Público do Pará acompanha o caso. Em setembro de 2023, o órgão organizou oficina com a Secretaria de Meio Ambiente do estado, Ibama, Ministério Público Federal, especialistas e organizações civis – entre elas o EIA – para discutir soluções. O grupo recomendou criar um sistema de rastreabilidade em tempo real, integrado ao Sinaflor federal. Hoje, Pará e Mato Grosso operam plataformas autônomas; a promotora Eliane Moreira, da 5ª Promotoria de Justiça Ambiental de Marituba, sustenta que o Sisflora-PA facilita fraudes por ser majoritariamente autodeclaratório e permitir transporte de madeira por até 60 dias, contra período de três a sete dias no sistema nacional.
Por nota, o Ibama informou que as autorizações irregulares partem do governo paraense e que fiscalizações estão em andamento. Em 2025, o órgão lavrou mais de 5 mil autos de infração ligados à flora amazônica. A Secretaria de Meio Ambiente do Pará afirmou que a Fazenda Pinheiros II responde a processo administrativo e que a situação da Fazenda Odila é investigada. A pasta adicionou ter apreendido mais de 15 mil m³ de toras desde 2023 e disse que seus sistemas (Simlam e Sisflora) operam integrados ao Sinaflor desde 2022.
Números acumulados
Somando os dados da primeira fase do estudo, publicada em 2024, e da nova atualização, o EIA já identificou 78 mil m³ de madeira suspeita de ilegalidade vendidos entre 2019 e 2025, montante equivalente a 31 piscinas olímpicas. O comércio envolveu 19 serrarias, 16 exportadoras – várias multadas pelo Ibama – e 30 importadores nos Estados Unidos e na União Europeia.
Chris Moye, gerente do programa EIA América Latina e coautor do relatório, ressalta que não é possível confirmar que as tábuas instaladas em cada obra de luxo correspondam exatamente às árvores derrubadas de forma ilegal. “O objetivo é demonstrar o elo comercial entre grandes empreendimentos e fornecedores já expostos por compras de alto risco”, afirmou. Ele alerta também para a pressão crescente sobre a TI Munduruku: imagens revelaram 60 km de estradas clandestinas e 1.200 m³ de toras estocadas dentro do território.
O relatório completo com todos os registros de compra e venda será divulgado na próxima terça-feira.




