A severa deterioração econômica do Irã, marcada por forte desvalorização da moeda local e cortes de subsídios, desencadeou protestos que já resultaram em milhares de mortes, segundo autoridades do próprio país. Manifestantes, reprimidos com rigor pelas forças de segurança, contestam a perda de poder de compra e a prioridade do governo a gastos militares em detrimento de políticas sociais.
Economia em queda livre
O rial iraniano perdeu 16% do valor apenas em dezembro de 2025, atingindo a mínima histórica de 1,47 milhão de riais por dólar. Ao longo daquele ano, a desvalorização acumulada alcançou cerca de 84%. Esse movimento cambial ocorreu em meio a inflação de alimentos que chegou a 72% em 2025, quase o dobro da média recente. Para proteger seus recursos, famílias passaram a vender ouro, móveis e a converter suas economias em dólares.
O Produto Interno Bruto, que registrava expansão de 9% nos primeiros anos da década de 2000, passou a crescer menos de 3% nos últimos períodos. As sanções internacionais reduziram a receita de petróleo, originando déficits orçamentários cobertos por expansão monetária e elevando a pressão inflacionária. O confronto de 12 dias com Israel e Estados Unidos no ano passado aprofundou o desequilíbrio fiscal, assustando investidores. Em resposta, o presidente Masoud Pezeshkian apresentou um orçamento válido até março de 2026 com cortes de gastos e aumento de impostos.
A gota d’água veio em dezembro, quando o governo anunciou o fim de parte dos subsídios aos combustíveis. Mesmo a promessa de transferências adicionais às famílias de baixa renda não conteve a indignação. O Grande Bazar de Teerã, considerado termômetro do humor popular, tornou-se palco das primeiras manifestações.
Linha do tempo dos protestos
13/12/2025 – Instituição de nova faixa de preços para gasolina subsidiada, primeira grande alteração desde 2019, provoca críticas generalizadas.
28/12/2025 – A moeda alcança recorde negativo de 1,47 milhão de riais por dólar e protestos eclodem no Grande Bazar de Teerã.
29/12/2025 – O presidente do Banco Central, Mohammad Reza Farzin, renuncia em meio à expansão dos protestos para outras cidades; polícia usa gás lacrimogêneo para dispersar multidões na capital.
30/12/2025 – Estudantes de vários campi aderem às manifestações; o presidente Pezeshkian promete a empresários empenho na recuperação econômica.
31/12/2025 – Abdolnasser Hemmati é nomeado novo presidente do Banco Central; em Fasa, manifestantes invadem o gabinete do governador e policiais são atacados, segundo relatos oficiais.
01/01/2026 – Aparecem as primeiras mortes confirmadas nos protestos; governo admite sete óbitos. Vídeos de repressão em diversas províncias viralizam nas redes sociais.
02/01/2026 – O então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaça o Irã em publicação na Truth Social caso a violência continue. Os protestos se espalham para mais de 100 locais em 22 das 31 províncias.
03/01/2026 – O líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, afirma que os manifestantes “devem ser colocados em seu lugar”. Estimativas apontam 15 mortos e 580 prisões.
06/01/2026 – Nova manifestação no Grande Bazar é contida com violência; atos chegam a mais de 280 pontos em 27 províncias.
08/01/2026 – Governo bloqueia internet e ligações internacionais após moradores gritarem dos apartamentos atendendo a chamado de príncipe herdeiro exilado.
09/01/2026 – Mídia estatal classifica manifestantes como “terroristas”, sinalizando endurecimento da repressão. O Irã acusa os EUA na ONU por fomentar protestos.
10/01/2026 – O procurador-geral declara que participantes dos atos serão considerados “inimigos de Deus”, crime punível com morte. Óbitos chegam a 116.
11/01/2026 – Trump diz que Teerã propôs negociações após suas ameaças. Organização de direitos humanos contabiliza mais de 500 mortos.
12/01/2026 – Manifestações pró-governo reúnem dezenas de milhares, mas autenticidade de imagens é questionada pelo suposto uso de inteligência artificial. Número de mortos sobe para ao menos 646; Trump ameaça tarifar em 25% países que façam negócios com o Irã.
13/01/2026 – Autoridade iraniana informa que cerca de 2.000 pessoas, incluindo integrantes das forças de segurança, morreram nas últimas semanas de confrontos.
Com a economia fragilizada, a moeda em queda livre e o custo de vida em alta, o Irã enfrenta uma das mais graves ondas de contestação popular das últimas décadas. A resposta do governo, baseada em repressão e restrições de comunicação, amplia o clima de tensão enquanto o número de vítimas aumenta.




