A temporada de balanços do quarto trimestre de 2025 começa no início de fevereiro e, segundo relatórios de Santander, UBS BB e BTG Pactual, o setor de varejo deve exibir desempenho desigual entre os diversos segmentos listados na B3.
Pressão macroeconômica e consumo seletivo
Analistas do Santander destacam que o enfraquecimento do ambiente macroeconômico, aliado à taxa básica de juros em torno de 15% ao ano durante período prolongado, deve continuar limitando a renda disponível das famílias. O banco projeta endividamento elevado, inadimplência em alta e redução de benefícios sociais, fatores que provocam consumo mais cauteloso, sobretudo em bens discricionários.
O UBS BB define 2025 como um “ano de duas metades”: primeiro semestre forte, seguido de desaceleração no segundo semestre, tendência que deve se prolongar para o início de 2026. Já o BTG Pactual reforça que a inflação acumulada nos últimos anos encareceu bens e serviços, comprometendo o poder de compra.
Desempenho esperado por segmento
Varejo farmacêutico
Para RD Saúde (RADL3) e Pague Menos (PGMN3), o Santander prevê continuidade de vendas sólidas em mesmas lojas (SSS) — alta estimada de 8,1%. O crescimento é impulsionado pela natureza resiliente do setor e pelas vendas de medicamentos da classe GLP-1, refletindo margem Ebitda projetada em 7,1%.
E-commerce
O Mercado Livre (BDR: MELI34) deve sustentar expansão robusta de volume bruto de mercadorias (GMV). A expectativa é de avanço de 34% no Brasil e 33% no México na comparação anual, mesmo com concorrência mais intensa. A margem EBIT, porém, pode encolher 2,7 pontos percentuais, em razão de reinvestimentos para preservar liderança.
Moda e vestuário
A Lojas Renner (LREN3) é vista como termômetro para o segmento. O Santander espera aumento de cerca de 2% nas SSS e expansão de 100 pontos-base na margem Ebitda consolidada. Para C&A (CEAB3), o banco calcula crescimento modesto de 0,5% nas vendas de vestuário em mesmas lojas, ante 8,1% no 3T25, refletindo ambiente competitivo mais acirrado e desafios de execução. Embora preveja melhoria de 87 pontos-base na margem bruta, a instituição indica provável queda da margem Ebitda para 17,1%, recuo de 1,26 p.p.
O UBS BB projeta SSS de 2,8% para Renner, estabilidade para C&A e aumento de 5,3% para Guararapes, controladora da Riachuelo. Alpargatas (ALPA4) deve continuar melhorando margens no Brasil e reduzir perdas no exterior, compensando crescimento de despesas gerais.
Joalherias
A Vivara (VIVA3) segue destacando-se: o Santander estima aceleração de receita bruta em aproximadamente 17% na base anual, impulsionada pelo comércio eletrônico. Contudo, maior atividade promocional pode pressionar a margem bruta, contrariando consenso de expansão de até 1 p.p. A margem Ebitda, por sua vez, tende a subir 0,37 p.p. graças a ganhos de eficiência em SG&A.
Fitness
Na Smart Fit (SMFT3), a abertura de 217 academias no trimestre — concentradas em dezembro — reforça estratégia de crescimento, mas deve reduzir temporariamente a margem bruta para 49,3%, queda de 0,79 p.p. O Santander avalia que, com a maturação das novas unidades, a rentabilidade deve retornar a níveis históricos.
Alimentação
O setor de supermercados permanece fragilizado. Para o Assaí (ASAI3), o Santander projeta SSS de 0,5%, enquanto o UBS BB espera 1,2%, resultado que implicaria avanço de 3,2% nas vendas totais e margem Ebitda de 6,5% (+0,1 p.p.). No Grupo Mateus (GMAT3), a previsão é de vendas em mesmas lojas negativas em 1,8% pelo Santander e de recuo de 2,8% no atacarejo segundo o UBS BB, com crescimento de receita desacelerando para 7,4% excluindo a divisão Novo.
Métricas setoriais agregadas
De forma consolidada, o BTG Pactual espera que a receita líquida das varejistas listadas avance 7% sobre o quarto trimestre de 2024, enquanto o Ebitda combinado deve crescer 8%. Entretanto, o banco destaca alavancagem operacional limitada, volumes mais fracos e gastos dos consumidores cada vez mais seletivos.
Empresas vistas como melhor posicionadas
Nos relatórios, Santander e UBS BB citam RD Saúde, Alpargatas, Smart Fit e Vivara como nomes relativamente protegidos para o 4T25. A Natura (NATU3) também aparece, com previsão de leve melhora nos indicadores, embora a retomada da confiança dependa de execução consistente.
Os bancos alertam que resultados fracos no 4º trimestre podem servir de sinal antecipado para 2026. Cortes na taxa básica de juros ao longo do próximo ano são considerados fator potencial de estímulo, mas ainda insuficiente para reverter, no curto prazo, os efeitos da alta do endividamento e da deterioração da renda.
Com números oficiais a serem divulgados a partir de fevereiro, o mercado acompanha de perto a performance das principais varejistas para calibrar expectativas sobre consumo, margem e capacidade de execução em um cenário macroeconômico desafiador.




